Dez anos atrás, estávamos em um boom de produção de conteúdo sobre empreendedorismo, criado por quem nunca tinha empreendido. Um caso foi emblemático: Bel Pesce e a hamburgueria Zebeleo.
Bel Pesce ganhou fama ao se formar no MIT, fundar uma startup que foi vendida por milhões de dólares e retornar ao Brasil para ensinar sobre negócios e empreendedorismo. Lançou livro, deu palestras e se uniu a dois sócios para criar uma hamburgueria gourmet. Foi feito um vídeo de lançamento, no qual os sócios contavam como se conheceram e pediam que as pessoas participassem via crowdfunding. A internet foi à loucura com três famosos e bem-sucedidos que queriam que outros bancassem a aventura culinária.
Esse vídeo acabou trazendo à tona outros questionamentos sobre a trajetória profissional de Bel Pesce, principalmente a partir de um conteúdo publicado pelo youtuber Izzy Nobre. Ícaro de Carvalho, hoje um grande nome do mercado digital, fundador d'O Novo Mercado, mas na época razoavelmente desconhecido, viralizou com um texto escrito meses antes, falando dos “empreendedores de palco”: pessoas que ensinavam empreendedorismo sem nunca terem tido empresa nenhuma.
Foi quando alguns grandes enxergaram uma brecha. Se estão batendo em quem fala sobre empreendedorismo sem ter empreendido, existe espaço para quem é conhecido por empreender. Nesse momento, alguns empresários famosos criaram seus programas de treinamento e mentoria.
Nessa mesma época, houve a popularização da Fórmula de Lançamento, um curso vendido pelo Érico Rocha, seguindo os ensinamentos do Jeff Walker, que prometia que era possível monetizar o conhecimento ao aplicar os conceitos do curso.
Essas duas coisas ajudam a explicar o empreendedorismo de Instagram que vemos hoje. Os grandes perceberam que poderiam usar os princípios da fórmula de lançamento para criar produtos digitais relacionados ao empreendedorismo, e vendê-los facilmente por meio da própria imagem que já tinham construído. E os pequenos encontraram nos resultados obtidos pela fórmula de lançamento a validação para continuar crescendo.
Hoje, a principal métrica usada para avaliar competência não é o quanto a pessoa sabe: é quanto ela fatura e quantos seguidores ela tem.
Mas, Thiago, uma pessoa ser famosa e faturar alto não é uma prova de que ela é boa no que faz?
Sim. Porque um bom cozinheiro tende a ter mais sucesso e a ganhar mais dinheiro do que um cozinheiro ruim. Um bom mecânico de carros tem mais clientes do que um mecânico que não consegue resolver os defeitos dos carros que conserta.
Mas ter a capacidade de ganhar dinheiro não significa que a pessoa possua capacidade de ensinar a fazer dinheiro, muito menos que ela possua a motivação de fazer os outros ganharem dinheiro. E hoje, a métrica mais usada para julgar se alguém consegue ensinar a ganhar dinheiro é quanto dinheiro essa pessoa ganhou, mesmo que não exista muita correlação entre a forma como ela ensina e a forma como ela de fato enriqueceu.
Imagine uma pessoa com 50 mil seguidores. Ela decide, lá em 2020, lançar um produto digital qualquer, sobre um assunto que gosta e entende. Gasta uns 10 mil reais em tráfego, consegue apresentar o produto para umas 5 mil pessoas. 200 pessoas decidem comprar um curso, em 10 parcelas de 50 reais. Essa pessoa faturou cem mil reais.
No próximo mês, essa pessoa já pode dizer: “Eu faturei mais de 6 dígitos com esse treinamento”, e instintivamente você já considera que o curso tem alguma qualidade, já que “tantas pessoas compraram”. E o sucesso da segunda rodada de venda do curso valida ainda mais os próximos cursos lançados. Algumas pessoas estão há anos vivendo de fazer essa roda girar. Quantos de fato conseguiram, com o curso, atingir o resultado prometido? Ninguém divulga, provavelmente não é monitorado, e boa parte nem se importa. O dinheiro já caiu na conta de quem vendeu, e a prova social já está sendo usada para vender para os próximos esperançosos, que acreditarão que o multimilionário está preocupado com o sucesso deles, a ponto de ser generoso o suficiente para vender por 500 reais um curso que custaria 10 mil, mas só até amanhã.
E as pessoas compram. Compram porque acreditam que o sucesso é replicável se for ensinado por quem tem sucesso. Esquecem que o sucesso depende muito mais de aplicar princípios corretos e repetir o que dá certo por tempo suficiente para que o efeito composto se torne visível. Os próprios “gurus” enriqueceram por manterem negócios lucrativos por tempo suficiente para acumular riqueza, seja através de negócios tradicionais, seja através dos cursos “que fecham o carrinho amanhã” e que eles escondem que estarão disponíveis de novo no mês que vem.
E um dos indicadores mais importantes de uma empresa de sucesso, que é a satisfação do cliente, é ignorado e substituído pelos números de faturamento. Mais importante do que o faturamento que uma empresa atingiu no curto prazo é a porcentagem de clientes que estão satisfeitos com o produto ou serviço recebido, que se tornam clientes recorrentes, que indicam os produtos e serviços para os amigos.
Quando for ouvir conselhos sobre negócios de alguém, veja o faturamento, mas não esqueça de pesquisar no Reclame Aqui.